O caminho de ferro e o turismo nas terras do cacau

Os caminhos de ferro – A história da ferrovia na região cacaueira da Bahia do mestre em cultura e turismo pela Uesc/UFBa, Manuel Tenório Júnior, marca a inauguração do selo Publicações Marinetti, direcionado a autores que enfoquem temas relacionados com Itabuna ou com a região Sul da Bahia, que se desenvolveu sob signo do cacau. O projeto editorial é patrocinado pela Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania.

A partir de uma análise dialética, o autor ressalta que ferrovia não transportou apenas cargas e pessoas pelo mundo, mas levou em seus trilhos a dominação das economias centrais através da submissão imposta aos habitantes dos países periféricos e dependentes economicamente. Para ele, a implantação de ferrovias no Brasil seguiu a mesma lógica e a construção da Estrada de Ferro de Ilhéus, no início do século passado, não foi um fato isolado do contexto global e sim conseqüência direta do período e da dinâmica histórica enfocada na pesquisa.

Para Manuel Tenório Júnior, a chegada do trem de ferro na Região Cacaueira representou a consolidação de um novo modelo no transporte, e sua implantação resultou do interesse do capital transnacional em áreas tropicais fornecedoras de produtos exóticos com crescente demanda no mercado internacional, como era o caso do sul da Bahia.

A implantação da The State of Bahia Western Railway Company Limited foi um importante elemento na ampliação da produção de cacau regional, uma vez que o antigo sistema de transporte em lombo de muares não atendia mais uma produção que já estava espalhada em um grande espaço agrícola. A estimativa é que o novo sistema reduzia em 80% os custos de transporte da produção.

Manoel Tenório observa ainda, que a ligação ferroviária entre os pólos produtores de cacau de Itabuna e Ilhéus, significou uma nova fase na cacauicultura do sul da Bahia, dinamizando o escoamento da produção de cacau até o porto exportador de Ilhéus, que em 1926 realizou a sua primeira remessa diretamente para os mercados externos através do navio a vapor sueco denominado de Falco.

O estudo constata ainda, que desde o período de funcionamento da primeira etapa da ferrovia até a sua total implantação, ou seja, nas três primeiras décadas do século XX, a lavoura cacaueira viveu sua fase áurea de expansão ocupando espaços da Mata Atlântica: “O plantio do cacau segue sua interiorização tendo na ferrovia um agente dinamizador e vai criando núcleos de povoamento e de fixação de pessoas que irão mais tarde se transformar em cidades tais como Itajuípe, Uruçuca e Ubaitaba”, que se desenvolveram à margem da ferrovia.

Introdução

 O livro tem na sua introdução e nos dois primeiros capítulos um enfoque direcionado para os aspectos históricos e dialéticos do desenvolvimento tecnológico que resultou na revolução industrial e na expansão do modelo de transporte ferroviário, ficando a parte final para a implantação da ferrovia no Sul da Bahia e para a proposta de um projeto sobre os caminhos de ferro como opção de roteiro turístico e cultural.

O autor também faz referências ao Movimento de Preservação Ferroviária – MPF-, com sede no Rio de Janeiro, uma associação sem fins lucrativos que realiza atividades de apoio à Administração Publica e a Associação Brasileira de Preservação Ferroviária (ABPF), que inclusive, administra através um trecho da extinta Companhia Mogyana de Estrada de Ferro (CMEF).

Tenório lamenta que apesar de contar com um rico acervo ferroviário, uma vez que a Bahia foi uma das pioneiras na implantação das ferrovias no Brasil, “o nosso Estado pouco explora o Turismo Cultural Ferroviário”. E diz que no caso específico da Região Cacaueira da Bahia a História Ferroviária Regional começa de maneira concreta com a implantação da “The State Of Bahia South Western Railway Company Limited”, empresa britânica fundada em Londres em 1908 e que ficou inicialmente conhecida como “Ferrovia Ilhéus-Conquista” apesar de servir unicamente à Região Cacaueira por mais de sessenta anos.

As obras de engenharia ferroviária construídas na época para o funcionamento da referida ferrovia, tais como estruturas de apoio, caixas d’água para abastecimento de caldeiras, estações ferroviárias, paradas de estribos, pontes metálicas e trilhos ainda existentes e, que, junto com uma locomotiva a vapor estacionada em Ilhéus, compõem o acervo histórico imóvel, móvel e integrado da referida ferrovia. Eles serviriam, segundo o autor como suporte para o projeto de turismo ferroviário no Sul da Bahia.

 Manoel Tenório salienta que este acervo regional possui um grande potencial turístico inexplorado e sua importância cultural e histórica é desconhecida até pela população local: “Um dos seus componentes, a Estação Ferroviária de Sequeiro de Espinho, localizada às margens do Rio Almada, é citada na famosa luta dos “Coronéis do Cacau” no romance intitulado Terras do Sem Fim, de autoria de Jorge Amado”.

Ele conclui salientando que a recuperação e revitalização do Patrimônio Histórico Ferroviário Regional pelos agentes públicos para fins turísticos, ocasionaria efeitos positivos na composição total da demanda agregada da economia regional.

Considera ainda que os investimentos governamentais no setor criariam um ciclo de crescimento sustentável ou não, dependendo de uma série de variáveis, mas servindo como indutores da atividade econômica, partindo da premissa que o acervo ferroviário regional possui construções arquitetônicas de elevado potencial turístico, mas que necessitam de reforma e restauração para serem revitalizados como espaço cultural e de atrativo turístico.

O estudo precede ao projeto da Ferrovia Oeste-Leste, que tem como foco de discussões do seu impacto econômico e ambiental, mas isso é outra história.


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