Uma lição de vida sem perder a dimensão crítica da realidade objetiva

 

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“Tentativas de fazer algo da vida”, de Hendrik Gerardus Groen e que tem como subtítulo “O diário secreto de Hendrick Groen, 83 anos e ¼”, nos remete a um diário que provocou uma série de polêmicas sobre o autor, o qual deve ter usado um pseudônimo para uma análise da velhice e seus dramas, mas sem perder a dimensão crítica da realidade das pessoas que vivem numa casa de repouso, num mundo cheio de contradições e sofismas. O livro tem uma dimensão nietzschiana pairando acima do bem ou do mal e fazendo a separação nítida entre o homem revoltado, aquele que é capaz de se explodir  disseminando a destruição ou o caos no seu entorno e do revolucionário, que acredita na capacidade de mudar o mundo a partir do exemplo e da ação individual ou participando do esforço coletivo.

O autor inicia o diário aos 83 anos e três meses dizendo na terça, 1º de janeiro de 2013, que “continuo não gostando de velhos neste ano novo. Do arrastar dos  pés por trás dos andadores, da impaciência fora de propósito, do eterno reclamar, dos biscoitinhos com chá, dos gemidos e dos lamentos.” O diário é não apenas uma tentativa de registro do seu dia a dia, como também uma forma para assegurar que o tempo que lhe resta e aos amigos  cada vez mais próximos da velha senhora seja o mais proveitoso e prazeroso possível.

Hendrick Groen vive numa casa de repouso, com poucos recursos da aposentadoria, sem receber vistas de parentes ou amigos – sua mulher está internada numa  outra casa similar em função de uma depressão severa e sua única filha morreu ainda jovem -, cercado de idosos que sucumbem às doenças degenerativas e aos achaques da velhice. A casa também reflete como um microcosmo a política do mundo com o exercício do poder autoritário da sua direção e dos seus empregados – enfermeiros, cuidadores e cozinheiros-, enquanto os internos não terminais convivem com disputas internas, propagando boatos, fazendo intrigas e bullying com os próprios companheiros.

O autor, que se mostra um anarquista e um defensor da liberdade em toda a sua dimensão, se autodefine como uma pessoa correta, atenciosa, simpática,  educada e prestativa: “não que eu seja realmente tudo isso, mas não me atrevo a ser diferente. Quase nunca digo o que quero dizer. Sempre escolho o caminho mais seguro. Minha especialidade: agradar a gregos e troianos”. No diário, ele se propõe a dar a sua modesta opinião, sem censura, sobre a vida num lar de idosos de Amsterdã, onde prevalece a lei da selva dos anciãos: velar ou ser velado.

No asilo, ele cria com um grupo de amigos uma associação informal, o “Tô-velho-mas-não-tô-morto”,  que além de discutir sobre os mais variados temas, inclusive a polêmica questão da eutanásia, também promove ações que fogem da rotina dos internos, ora realizando eventos e aulas de gastronomia, consumindo bebidas refinadas, participando  da exibição de filmes e até mesmo de atividades esportivas como  sessões de golfe, o que aumenta o afastamento dos seus integrantes em relação aos demais pacientes que não fazem parte desta confraria exclusivista. O grupo também discute e questiona as práticas de gestão da instituição.

Vivendo num ambiente onde tudo se divide entre o nunca e o sempre, e em que  a lógica não é o forte, do autor aparecem algumas pistas colocadas no texto ágil e bem humorado, retratando o fato de que nada pode conter o declínio provocado pelo passar inexorável do tempo, concluindo: “você jamais ficará mais jovem, nem um dia, nem uma hora, nem um minuto.”  Ele constata que a partir dos 40 anos, quando os filhos crescem e já não precisam dos pais, um ser humano se torna inútil e começa uma fase de declínio gradual, primeiro em forma de calvície e óculos para leitura, o que se acentua com o tempo.

O próprio diário funciona como uma espécie de quebra-cabeças onde se reconstitui a vida pregressa do autor, com a sua solidão e limitações econômicas de quem não acumulou bens imóveis ou semoventes, mantendo apenas um pequeno capital, o que lhe permite a compra de um triciclo ganhando assim mobilidade para suas andanças nas ruas de Amsterdã. Ele também revela suas relações com os integrantes da associação do “to-velho-mas-não-tô-morto’, como uma espécie de igreja sem dirigentes, onde prevalece a amizade, o companheirismo e a cumplicidade na busca dos prazeres da vida.

No grupo se destacam entre outros personagens Evert, um velho gaiato, consumidor de uísques e vinhos de marca, que vai tendo as partes do corpo amputadas de forma gradativa; além de Grietj,  que se prepara para uma convivência com o Alzheimer – a demência é um problema que afeta a 250 mil holandeses -, doença com uma sobrevida média de oito anos num país europeu e Eefje, uma refinada viúva, com quem se identifica e redescobre na velhice o amor de certa forma platônico e o carinho, mas acaba sucumbindo a um AVC.

Alguns críticos comparam o livro com uma versão senil do “O Estranho no Ninho” de Ken Kesey, uma obra de ficção que ganhou uma versão cinematográfica e identificada com os cânones da Contracultura ou mesmo com o filme israelense Mita Tova (Festa de Despedida), de Tal Granit e Sharon Maymon, que tem como referências velhos internados num asilo e que inventam uma máquina na qual implementam a prática da eutanásia em pacientes terminais.

Groen mergulha na questão das relações entre os idosos e narra a seu modo a morte misteriosa de sete peixes num aquário, que no asilo ganhou uma dimensão maior que a da guerra da Síria com seus massacres. Também critica aos puxa-sacos  de plantão e fala de uma constatação de que sobrevive ao tempo: “ ou você mesmo morre cedo, ou terá que enfrentar uma longa procissão de funerais.” Constata ainda, que com a velhice a autocrítica diminui consideravelmente e que os idosos não são os culpados pela crise do nosso tempo em sua dimensão política, econômica ou social globalizada.

Em 23 de janeiro, o autor do diário questiona ao seu médico sobre a possibilidade de conseguir a pílula milagrosa e que resolveria todos os males e achaques, tendo como resposta que ainda não existia um medicamento assim. Na mesma consulta, o médico constatou que o paciente  tinha uma lista de problemas impressionantes: gotejamento, dor na perna, tontura, caroços, passando unguentos e paliativos.

No diário  consta a questão de assédio moral nas escolas e na internet ocupando amplo espaço na televisão e nos jornais, mas é um tema que não aparece com relação às casas de repouso: “mas passe um dia aqui dentro e você verá. Temos verdadeiros especialistas.”  Outra constatação é que num ambiente sempre com a morte à espreita, com isso, uma boa quantidade dos moradores dos asilos se agarra à fé e à religião na vusca talvez de uma salvação para a vida futura.

Em 5 de fevereiro, ele destaca no seu diário que “os planos para uma clínica de eutanásia estão dando o que falar, especialmente para pessoas cujos médicos recusam o procedimento. A iniciativa é da Associação Holandesa para o Fim Voluntário da Vida. Essa associação com certeza tem muitas baixas entre os seus membros.” A entidade conseguiu 40 mil assinaturas apostas a um projeto encaminhado ao parlamento propondo a morte assistida para pessoas com mais de 70 anos, mas Groen também fala de coisas alegres como a ânsia pela chegada  da primavera que se avizinha.

O diário secreto revela a preocupação do autor em não se tornar um fardo e a constatação de que as pessoas idosas se privam demais. Mostra ainda, que envelhecer se parece com um processo reverso do desenvolvimento de um bebê até atingir a plenitude da vida adulta:  “se a morte demora demais para chegar você acaba como um bebê velho e incompreensível, de fraldas e meleca no nariz.”

Num tempo de sofismas, o autor frisa que os poucos as pessoas passaram a se sentir desconfortáveis com a palavra asilo, que virou casa de repouso e depois foi transformado numa espécie de centro de assistência. Ao mesmo tempo  velhice se tornou terceira idade e há quem a considere numa exacerbação uma melhor idade, constatando que ele mesmo foi incorporado por uma organização comercial, a qual oferece cuidados personalizados a idosos, mas em contrapartida com um custo econômico elevado gerando lucros e dividendos para o empreendimento.

Pairando acima do bem e do mal ou do politicamente correto, o diário secreto de Groen constata que só agente funerário ganha alguma coisa com a morte e registra, que “a Holanda é uma sociedade de apartheid: brancos com brancos, turcos com turcos, pobre com pobres, tapados com tapados. Em nosso caso há mais uma divisória: velhos com velhos.”

Em sua dialética, ele nega qualquer influência do filosofo alemão sobre a sua obra e diz textualmente: “Melhor nem começar  uma boa conversa sobre Nietzsche. Tudo bem, porque eu também não sei nada sobre Nietzsche”, para complementar dizendo que se sente feliz se ninguém vier para o seu lado reclamando da vida. Também recomenda, que se viva sempre como se fosse este fosse o seu último dia, num mundo em que todos estão condenados à morte.

Ao enfatizar que quando não se faz nada é que nada pode dar errado, Hendrik Groen, escreve no seu diário que mesmo diante de um vazio existencial, o qual considera insuportável, o compensa com as alegrias das amizades de Eefje, Graeme, Grietje, Edward, Antoine, Evert e Ria, que são motivos suficientes para continuar a viver, afinal nesta fase da vida são as pequenas coisas que importam.

No balanço de perdas e haveres, Groen para quem nada é mentira, mas nem tudo é verdade termina o ano lembrando que vai ficar com tempo de sobra sem Eefje, a quem gostaria de ter conhecido há 50 anos e sem o diário,mas como não se pode evitar o ano novo, que venha logo a primavera. Há o projeto talvez de escrever um romance. Ao mesmo tempo, ele planeja uma viagem etílica às vinícolas da Holanda e sabe que depois deste desafio terá de engendrar novos planos, porque enquanto houver planos, há vida e por trás de tudo isto há a esperança, talvez a última que morre.(Kleber Torres)

 

PS- Em tempo, o autor publicou ano passado a continuação do diário.

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