A ascensão e queda de um castelo de cartas que virou pó

 

 

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No momento em que o empresário Eike Batista deixa o noticiário econômico para ocupar espaço nas páginas policiais em função da decretação da sua prisão por envolvimento no pagamento de propinas a políticos como Sérgio Cabral, também investigado na Operação Eficiência, um desdobramento da Lava Jato, nada melhor que a leitura de “Ascensão e Queda do Império X”, do jornalista Sergio Leo, colunista do jornal Valor Econômico.

O livro analisa as jogadas, trapaças e bastidores  da construção de um império de empresas e de uma fortuna de US$ 34 bilhões, que desmoronou como um castelo de cartas e simplesmente virou pó.

Com 19 capítulos, o livro começa falando das histórias exóticas de um excêntrico milionário, que começou como vendedor de seguros quando estudava na Europa e que agregou o X ao nome das suas empresas na tentativa de gerar  um efeito multiplicador e dinamizador de resultados. Ele também exigia que todos os contratos que assinasse terminassem em 3, número o qual acreditava lhe trazer boa fortuna, por coincidir com a data do seu nascimento.

O trabalho também parte de uma constatação: nunca na história da América Latina um empresário caiu de tão alto em tão pouco tempo. O fato é que o valor  das suas cinco empresas com ações negociadas na bolsa de valores chegaram  R$ 95 bilhões em 2010  e deste total R$ 72 bilhões eram da OGX, empresa de petróleo que naufragou num mar de incompetência e de erros. Ao agregar o X à marca das suas empresas, Batista não apenas se rendia à superstição, como também investia alto numa jogada de marketing, que era a sua maior especialidade.

Ascensão e queda do imperito também traça a trajetória do vendedor do seguros que se embrenhou na selva amazônica para exploração de uma mina de ouro, a sua primeira experiência de um investidor malsucedido. No capitulo que fala sobre um menino de ouro, há uma autodefinição premonitória de Eike e que vale para a compreensão da sua tumultuada trajetória empresarial: “a única coisa certa no mundo dos negócios é que você vai errar”, ao rememorar as dificuldades enfrentada no garimpo.

Em na Grécia aparece a sua primeira grande tragédia. Sergio Leo fala do insucesso da TVX  Gold no Canadá, cujas ações perderam 90% do seu valor no período de 2001 a janeiro de 2002. Cabe frisar que entre 1980 e 2000, o empreendedor criou US$ 20 bilhões em valor com a implantação e operação – nem sempre bem sucedida – de oito minas no Brasil, Canadá e Chile. Em tudo isso ficou uma marca registrada de Batista: a capacidade de esquecer o insucesso e de partir sempre para uma outra jogada ou aventura.

Também fica evidenciado ao longo do livro, a improvisação associada com “a falta de conhecimento do mercado, otimismo excessivo em relação aos possíveis resultados e incapacidade em atender às promessas, feitas não raramente para atrair consumidores ou investidores, todos estes defeitos que  se mostrariam de forma dramática no colapso do grupo EBX estiveram por trás destas iniciativas, que evidenciam o voluntarismo do seu idealizador”, como enfatizou Sergio Leo.

Como está explicito na Lei de Murphy ao considerar que se algo pode dar errado, dará, um capitulo trata dos fracassos na largada do macroprojeto do complexo empresarial e sinérgico da eBX Express Brasil, que nasceu da fusão de cinco empresas de entregas de encomenda e com o foco de ser a primeira do país neste tipo de serviço, mas não teve competência para concorrer com os Correios.

Depois ele se embrenhou na construção de uma franquia a Clarity, deixando atrás de si dezenas de franqueados falidos, que entraram com uma ação contra a empresa que não tinha nenhum patrimônio e apenas um capital social de R$ 1  mil, e depois num malfadado projeto industrial para a produção de jeeps, com tecnologia defasada e que depois quase era reduzida a uma fabrica de tuk-tuk nacional que não saiu da prancheta dos engenheiros.

O livro fala ainda de olhar 360 graus, coisa de tubarão, da termelétrica de vestido curto financiada com recursos públicos e da criação de uma marca de bilhões após a separação do empresário ao deixar de ser marido de Luma de Oliveira e ao sentir: “agora que estou sozinho; o que faço para deixar minha marca no mundo”, acabou se decidindo pela criação da MMX, que valia R$ 3 bilhões em 2006 e duplicou de valor em março do ano seguinte.

No capitulo sobre o ferro de Cynthia, um grupo de agentes da polícia federal que participava da Operação Toque de Midas em 2008, esteve na empresa e casa de Eike Batista, que fez sua estreia nas páginas do noticiário policial. Cerca de 10 dias após a operação as ações da EBX perderam 18% de seu valor e de julho a agosto, o valor das ações que tinha atingido até R$ 27 bilhões caiu para R$ 8,9 bilhões segundo a Economática.

Além dos projetos mirabolantes que deixaram a MMX a ver navios e o de implantação uma espécie de Roterdã brasileira, uma cidade para 50 mil pessoas e que não saiu do papel, se somam a capítulos como os agrados ao poder, com a crescente aproximação do empresário a políticos como Luís Inácio Lula da Silva, Dilma Rouseff a ao senador e depois governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, a quem destinou uma propina de R$ 52 milhões, denunciada agora com a Operação Lava Jato. Eike Batista também investiu além da filantropia de resultados, no financiamento de campanhas políticas .

O final do livro é dedicado à derrocada do império de empresas com referência à explosão da petroleira na bolsa, onde as ações tiveram desde o lançamento uma valorização artificial diante dos olhos omissos da CVM e do governo. Também questiona sobre o óleo que estava aqui,  com as estimativas superdimensionadas de reservas de mais de dez bilhões de barris a um valor de US$ 1 trilhão.

Em a ascensão e queda do império o autor nos revela que existem ex-sócios, amigos e gente do governo para quem Eike Batista não cometeu nenhuma fraude ou atos de má fé no conjunto dos seus projetos mirabolantes. Um ex-colaborador cita textualmente, que ele “concebeu projetos que tinham uma lógica e viabilidade, mas subestimou a complexidade da execução desses investimentos, de seu financiamento, da gerência, no dia a dia”. Na OSX, por exemplo, cada plataforma de petróleo estava subordinada a uma empresa à parte.

Leo Sergio conclui lembrando que a saga das empresas não termina tão cedo – e teve desdobramentos estes dias com o pedido de prisão do empresário pela PF- e em 2013, Eike fechou um acordo com credores da OGX  para impedir que o pedido de recuperação judicial da empresa resultasse na decretação da sua falência. Foi dada de presente ao empresário a troca de US$ 5,8 bilhões em dívidas por participação acionária no empreendimento. Eike saiu ainda com 9,4% das ações da companhia e com a garantia de que não lhe seriam cobrados US$ 1 bilhão que se comprometera a botar no jogo para salvar a empresa da derrocada.

Quem perdeu com este processo foram os  acionistas minoritários que tiveram sua participação acionária na empresa encolhida de 50% para apenas 5%. O autor constata que a derrocada das empresas X evidencia s fragilidade do sistema financeiro do país, que deveria oferecer proteção aos empreendedores e investidores.

Constata ainda que as empresas do complexo Império  X se beneficiaram com a ajuda oficial e com a incompetência dos órgãos de fiscalização, tendo a seu favor um fenômeno pouco divulgado: a mistura de interesses no setor financeiro, em que bancos remunerados de acordo com a valorização das ações de uma empresa são os mesmos que avaliam e até recomendam a compra destas ações, numa simbiose patológica.

Mas o caso X não é único na história recente da economia brasileira. Dois estudos de uma empresa de consultoria concluiu em 2010 que entrar em empresas que abriram a venda de ações na Bovespa, os investidores fizeram em sua maioria um mau negócio, especialmente nos casos de empresas pré-operacionais como as empresas X. O autor cita entre casos memoráveis de empresas que tropeçaram nas próprias pernas com prejuízos para os investidores a Agrenco e o banco Cruzeiro do Sul, que resultou numa fraude  com prejuízos milionários que culminaram na prisão dos seus controladores.

Leo conclui mostrando que o homem que fracassou na criação de uma mini-Petrobrás e de uma mini-Vale deixou com o fiasco uma lição essencial: que sem mudanças de como se financiam ousadias dos capitalistas brasileiros, o país não está livre de ver ressurgirem, no futuro, outros mini-Eikes capazes de danos gigantestcos às economias de mini-investidores desmemoriados”, que o digam os clientes lesados em Itabuna pelo golpe da Credicoograp ainda numa lenta liquidação e as vitimas das pirâmides que pululam nos bastidores da rede de computadores e tratadas até como investimentos. (Kleber Torres)

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