Uma biografia nos diversos contextos da vida e do jornalismo baiano

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“Vida privada no contexto público” não é apenas um livro de cunho autobiográfico do escritor, jornalista, poeta e professor Sérgio Mattos, um profissional multimídia, que, na posição de narrador e personagem da obra, resgata ao mesmo tempo a história  da comunicação e  da Bahia contemporânea, contextualizando o período de tempo compreendido entre 1948 e 2015. Ele nos remete  para a criação da Tribuna da Bahia,  sua passagem pelo Jornal A Tarde, onde criou projetos importantes, como também para a sua atuação na Televisão Educativa da Bahia (TVE) e o lançamento da revista cultural Neon,  que reunia um elenco de jornalistas e intelectuais expressivos, desativada em 2004.

No alentado livro de 648 páginas,  com  fartas ilustrações e documentos, além de sete anexos, o autor, faz interpretações e análises históricas e pessoais de seu tempo numa linguagem leve e direta, fazendo ao mesmo tempo um retrospecto da  sua própria existência falando do filho e de dois casamentos. Tudo  a partir de uma trajetória pessoal, mas caracterizando-se ao mesmo tempo como um depoimento que serve para identificar uma geração num momento critico da história do Brasil, após a eclosão da revolução institucional de 1964, com prisões e censura.

O livro nos conta a história da família, que veio do Ceará para a Bahia em função dos compromissos profissionais do pai, que trabalhou por vários anos na IBM e o levou para a empresa, o seu primeiro emprego formal.

Sérgio Mattos resgata também da sua militância nos movimentos da Juventude Católica com bases nas universidades, no operariado e entre alunos do ensino médio. Desta fase, Sérgio Mattos lembra que D. Eugênio Sales, então Cardeal Primaz do Brasil, acabou com  “A JEC, JOC, JUC em Salvador, da mesma forma que ocorreu no resto do país devido ao momento político em que vivíamos.

” Com esta decisão, inúmeros membros da Ação Católica em todo o país migraram para a Ação Popular, ingressando assim na luta armada  contra a ditadura militar instaurada no país.  Mattos conta que  participou do movimento estudantil até 1969, quando conclui o curso universitário e depois, se casa no ano seguinte, iniciando a sua carreira no jornalismo e na área da educação.

O autor salienta  ainda da sua participação na equipe fundadora da Tribuna da Bahia, liderada pelo jornalista Quintino de Carvalho e que foi decisiva na sua trajetória  e formação como profissional. Depois ele destaca  suas participações no campo da cultura, da educação superior e da imprensa baiana estão inseridas no contexto socioeconômico, cultural e político do país e da Bahia.

O livro está dividido didaticamente em sete partes, ou períodos cronológicos, mas apesar da sincronia entre o tempo e o espaço da vida, o autor consegue fugir da linearidade meramente temporal ao utilizar  recursos técnicos e estilísticos utilizados por memorialistas e biógrafos através de flash-backs e cortes, introduzindo assim um dinamismo próprio à narrativa. Assim, ele  fornece ao leitor uma visão de sua época, de sua geração num período de grandes mudanças sociais, tecnológicas e políticas.

Quanto à sua passagem de 30 anos no jornal A Tarde, ele define que o jornal tem a sua trajetória ligada a Jorge Calmon, dividindo a sua história em três etapas distintas:  antes, durante e pós Jorge Calmon, que comandou uma série de projetos inovadores como A Tarde Municípios, que chegou a ser mais lida que o suplemento de cultura e A Tarde Rural, esta última voltada para o segmento rural, com forte influência na economia baiana.  Projetos dos quais participei como repórter da Sucursal de Itabuna em duas etapas e por mais de duas décadas.

O livro também nos transporta para as atividades acadêmicas e na Intercom de Sérgio Mattos, que hoje atua na Universidade Federal do Recôncavo Baiano onde comanda  a área editorial e contém críticas ao erro estratégico que resultou no desenlace de um projeto jornalístico de A Tarde Municípios e a Tarde Rural, que resultou na perda de espaços preciosos para o jornal com a perda de leitores e redução de vendas nas bancas. No interior havia cidades em que um exemplar de A Tarde chegava a ser lido por até 50 pessoas.

Mattos nos mostra também a sua ida aos Estados Unidos, onde em agosto de 1982 concluiu o curso doutorado em comunicação,   conseguindo transformar a experiência individual em uma ferramenta de conhecimento e que procurou aplicar no ensino e na vida profissional. Ela também fala da sua participação na juventude de um a revista de poesia experimental e do lançamento de diversos livros inclusive sobre comunicação, um marco iniciado com “Nas Teias do Mundo.”

Tudo isso torna “Vida Privada no Contexto Público” não apenas livro de reflexões sobre uma pessoa e um determinado corte de tempo da sua vida, mas um indicativo de um período histórico e os seus desdobramentos servindo para a construção de uma ponte para compreensão e entendimento entre o passado, o presente e o futuro que vem com o amanhecer de cada dia, cobrando de cada um os seus acertos e os seus erros, mesmo que eventuais. (Kleber Torres)

 

 

ISBN: 9788580050905

Edição: 1ª

Ano: 2015

Páginas: 648

Tipo de Capa: Brochura

Dimensão: 17x23cm

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